POR DAIANE COSTA
12/01/2018 18:16 / atualizado 12/01/2018 18:56
Estudo realizado pelo Dieese aponta que, além de não ter tido crescimento real, o salário mínimo estabelecido pelo governo federal para 2018, de R$ 954, perdeu poder de compra, retornando ao patamar de 2015. Isso ocorre porque, segundo o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, ao conceder o reajuste, que foi de 1,81% sobre os R$ 937 que vigoraram durante 2017, o governo superestimou a desinflação do ano que encerrou. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que serve como base para cálculo do novo mínimo, ficou em 2,07% em 2017.
— O governo reajustou dentro do permitido, mas trabalhou da forma mais conservadora, para diminuir suas despesas. É necessário, portanto, a revisão do reajuste anunciado, de modo a devolver ao salário mínimo o poder de compra do início do ano passado, o que pressupõe o repasse integral do INPC, além da incorporação da perda de 0,10% que lhe foi imposta em janeiro de 2017 — defende Lúcio.
A política de valorização do salário mínimo está diretamente ligada à dinâmica econômica, já que o mecanismo de valorização vincula o crescimento do PIB (de dois anos antes) ao aumento real do salário mínimo, ou seja, condiciona sua valorização à "produtividade social". Ocorre que, desde meados de 2014, o PIB brasileiro recua. A atividade recuou 7% e o salário mínimo, já em janeiro de 2017, não obteve ganho real ou mesmo teve o poder de compra recomposto. A consequência imediata, diz o Dieese, é a quebra de um ciclo virtuoso da economia e a interrupção do processo de desconcentração da renda no país.
Com a quantia de R$ 954, determinada para janeiro de 2018, impõe-se ao salário mínimo perda acumulada de 0,34% nos últimos dois anos, o que o faz retornar praticamente ao mesmo valor real de janeiro de 2015, segundo as contas do departamento sindical.
— O salário mínimo não teve ganho real porque não teve crescimento econômico em 2016 (PIB caiu 3,6% em 2016), mas nem o poder de compra foi reposto, então teve perda salarial. É relevante que o Brasil mantenha a política de valorização de salário mínimo. Temos que pensar que a saída econômica deve contremplar essa política, principalmente porque se aposta numa retomada baseada pelo aumento do consumo das famílias — defende o diretor do Dieese.
Em 2004, as Centrais Sindicais lançaram a campanha pela valorização do salário mínimo. Nesta campanha, foram realizadas três marchas conjuntas em Brasília com o objetivo de pressionar e, ao mesmo tempo, fortalecer a opinião dos poderes Executivo e Legislativo sobre a importância social e econômica dessa proposta. Também como resultado dessas negociações, acordou-se, em 2007, uma política permanente de valorização do salário mínimo, a ser aplicada até 2023. Essa política adotou como critérios o repasse da inflação do período entre as correções, o aumento real pela variação do PIB (Produto Interno Bruto), além da antecipação da data-base de revisão - a cada ano - até que fosse fixada em janeiro, o que ocorreu em 2010.
Segundo o Dieese, essa sistemática, além de se mostrar eficiente na recuperação do valor do salário mínimo e ser reconhecida como um dos fatores mais importantes no aumento da renda da população mais pobre, ampliou o mercado consumidor interno e fortaleceu a economia brasileira.
Evolução do salário mínimo
| Ano | Reajuste nomimal (%) | Inflação (INPC %) | Aumento real (%) | Salário mínimo (R$) |
|---|---|---|---|---|
| 2003 | 20 | 18,54 | 1,23 | 240 |
| 2004 | 8,33 | 7,06 | 1,19 | 260 |
| 2005 | 15,38 | 6,61 | 8,23 | 300 |
| 2006 | 16,67 | 3,21 | 13,04 | 350 |
| 2007 | 8,57 | 3,30 | 5,10 | 380 |
| 2008 | 9,21 | 4,98 | 4,03 | 415 |
| 2009 | 12,05 | 5,92 | 5,79 | 465 |
| 2010 | 9,68 | 3,45 | 6,02 | 510 |
| 2011 | 6,86 | 6,47 | 0,37 | 545 |
| 2012 | 14,13 | 6,08 | 7,59 | 622 |
| 2013 | 9 | 6,2 | 2,64 | 678 |
| 2014 | 6,78 | 5,56 | 1,16 | 724 |
| 2015 | 8,84 | 6,23 | 2,46 | 788 |
| 2016 | 11,68 | 11,28 | 0,36 | 880 |
| 2017 | 6,48 | 6,58 | -0,1 | 937 |
| 2018 | 1,81 | 2,07 | -0,25 | 954 |